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Filosofia - 10º ano

O que é a Filosofia

Autor: Sara M.

Escola

Data de Publicação: 21/05/2006

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O que é a Filosofia? Quais são as questões da filosofia?

“Eu já disse que a capacidade de nos surpreendermos é a única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos? Se não o disse, digo-o agora: A CAPACIDADE DE NOS SURPREENDERMOS É A ÚNICA COISA DE QUE PRECISAMOS PARA NOS TORNARMOS BONS FILÓSOFOS.

Todas as crianças pequenas possuem essa capacidade, isso é óbvio. Com poucos meses de vida, começam a aperceber-se de uma realidade completamente nova. Mas quando crescem, esta capacidade parece diminuir. Qual será o motivo? (...).

Será a minha tarefa impedir que tu (...) te tornes uma daquelas pessoas para quem o mundo é evidente. (...)

Aparentemente, perdemos durante a nossa infância a capacidade de nos surpreendermos com o mundo. Mas com isso, perdemos algo essencial – algo que os filósofos querem reavivar. Porque em nós algo nos diz que a vida é um grande mistério. Já tivemos essa sensação muito antes de termos aprendido a pensar nisso.

Vou ser mais preciso: apesar de todas as questões filosóficas dizerem respeito a todos os homens, nem todos os homens se tornam filósofos. Por diversos motivos, a maior parte está presa de tal forma ao quotidiano que o espanto perante a vida é muito escasso. (...).

Para as crianças, o mundo – e tudo o que existe nele – é uma coisa nova, uma coisa que provoca estupefacção. Os adultos não o vêem assim. A maior parte dos adultos vê o mundo como qualquer coisa completamente normal.

Os filósofos constituem uma excepção notável. Um filósofo nunca se conseguiu habituar completamente ao mundo. Para um filósofo ou para uma filósofa o mundo é ainda imcompreensível, inclusivamente enigmático e misterioso. Os filósofos e as crianças pequenas possuem uma importante qualidade em comum. Podes dizer que um filósofo permace durante toda a sua vida tão capaz de se surpreender como uma criança pequena.

E agora tens que te decidir, (...): és uma criança que ainda não se habituou ao mundo? Ou és um(a) filósofo(a) que pode jurar que isso nunca lhe acontecerá?

Se abanas a cabeça e não te sentes nem como criança nem como filósofo(a), é porque te acostumaste tão bem ao mundo que este já não te surpreende. Nesse caso o perigo está eminente. Por isso te ofereço este curso de filosofia, para prevenir. Não quero que tu pertenças à categoria dos apáticos e dos indiferentes. Quero que vivas a tua vida de modo consciente.”

Jostein Gaarder, O Mundo de Sofia, Ed. Presença, pags.21-23

 

 

 “A preocupação fundamental da filosofia consiste em questionarmos  e compreendermos ideias muito comuns que usamos todos os dias sem pensarmos nelas. Um historiador pode perguntar o que aconteceu em determinado momento do passado, mas um filósofo perguntará: «o que é o tempo?» Um matemático pode investigar as relações entre os números, mas um filósofo perguntará: «O que é um número?» Um físico perguntará de que são constituídos os átomos ou o que explica a gravidade, mas um filósofo irá perguntar como podemos saber que existe qualquer coisa fora das nossas mentes. Um psicólogo pode investigar como é que as crianças aprendem uma linguagem, mas um filósofo perguntará: «Que faz uma palavra significar qualquer coisa?» Qualquer pessoa pode perguntar se entrar num cinema sem pagar está errado, mas um filósofo perguntará: «O que torna uma acção certa ou errada?».

Não poderíamos viver sem tomarmos como garantidas as ideias de tempo, número, conhecimento, linguagem, certo e errado, a maior parte do tempo, mas em filosofia investigamos essas mesmas coisas. O objectivo é levar o conhecimento do mundo e de nós um pouco mais longe.”

Thomas Nagel, Que Quer Dizer Tudo Isto? Uma Iniciação à Filosofia, Gradiva, pags.8-9

 

 

 “Pensar é dizer não. Notai que o sinal do sim é próprio do homem que se deixa a adormecer; ao contrário, o homem desperto agita a cabeça e diz não. Não a quê? Ao mundo? Ao tirano? Ao pregador? Isto não é senão aparência. Em todo o caso, é a si próprio que o pensamento diz não.  (...) O que faz com que o mundo me engane com as suas perspectivas, com os seus nevoeiros, com os seus choques desviadores é que eu consinto, é que eu não procuro outra coisa. E o que faz com que o tirano seja meu mestre é o facto de eu o respeitar em vez de o examinar. (...) É por acreditarem que os homens são escravos. Reflectir é negar o que se crê.

Quem acredita nem sequer sabe aquilo que crê. Quem se satisfaz com o seu pensamento não pensa em mais nada. (...) Que é que eu vejo quando abro os olhos? (...) É ao interrogar as coisas que eu as vejo. (...) Notai que à primeira apresentação tudo surge como verdadeiro.”

Alain, Libres propos, in AAVV Um outro Olhar sobre o Mundo, Ed. ASA, pag.118  

 

 

Viver sem filosofar equivale, verdadeiramente, a ter os olhos fechados, sem nunca procurar abri-los, e o prazer de ver todas as coisas que a nossa vista alcança não se compara à satisfação que confere o conhecimento do que se encontra pela filosofia; e enfim que este estudo é mais necessário para regrar os costumes, e conduzir-nos na vida, do que o uso dos olhos para nos guiar os passos. Os brutos animais que apenas possuem o corpo para conservar, ocupam-se, continuamente, com procurar alimentá-lo; mas os homens, cuja parte principal é o espírito, deveriam primacialmente empregar o tempo na pesquisa da sabedoria, o seu verdadeiro alimento.”

R. Descartes, Princípios da Filosofia, Guimarães editores, pag.31 

 

 

 “A filosofia é esta reflexão crítica e interrogativa que permite a um homem e a uma civilização ascender à consciência de si, distinguir entre os verdadeiros e os falsos valores, pôr-se em questão para se renovar e ultrapassar. Um tempo como o nosso, caracterizado pela expansão e a crise dos saberes e dos poderes e onde os problemas se vão radicalizando, tem uma premente necessidade, para se compreender a si próprio, de um pensamento filosófico livre, vivo, diferenciado. Se a filosofia se apagar, se a voz dos filósofos se extinguir, o espírito tornar-se-á cada vez mais vulnerável às manipulações dos mercadores de ídolos e dos fabricantes de opinião.”

Manifesto pró-filosofia, publicado no Le Monde de Julho de 1975, ,  in AAVV, Rumos da Filosofia, Ed. Rumo, pag.123

 

 

 “O Valor da filosofia encontra-se, de facto, na sua própria incerteza. O homem sem rudimentos de de filosofia passa pela vida encarcerado nos preconceitos derivados do senso-comum, das crenças habituais do seu tempo ou da sua nação, e de convicções que se desenvolveram no seu espírito sem a cooperação ou o consentimento da sua razão ponderada. Para tal homem, o mundo tem tendência a tornar-se definido, finito, óbvio; os objectos comuns não levantam questões, e as possibilidades estranhas são desdenhosamente rejeitadas.

Mal começamos a filosofar, pelo contrário, descobrimos[...] que até as coisas mais corriqueiras levantam problemas a que só podemos dar respostas muito incompletas. A filosofia, apesar de ser incapaz de nos dizer com certeza qual é a resposta verdadeira às dúvidas que levanta, tem a capacidade de sugerir muitas possibilidades que alargam os nossos pensamentos e os libertam da tirania do hábito. Assim, apesar de diminuir a nossa sensação de certeza quanto ao que as coisas são, a filosofia aumenta em muito o nosso conhecimento do que podem ser; elimina o dogmatismo algo arrogante daqueles que nunca viajaram no território da dúvida libertadora, e mantém vivo o nosso sentido de deslumbramento ao mostrar coisas familiares sob um aspecto estranho.”

Bertrand Russel, Os Problemas da Filosofia, in AAVV, A Arte de Pensar, pag.24  

 

Sara M.

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